sábado, 4 de outubro de 2008

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não
ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.

E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A comer sanduiche porque não dá para almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A tomar o café correndo porque está atrasado.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter
com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.

Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias de água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma
dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira
fila e torce um pouco o pescoço.

Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se
acostumar, e se perde de si mesma.

“EU SEI MAS NÃO DEVIA" Clarice Lispector

9 comentários:

Camila :) disse...

jha tinha lido esse texto
elaa arrasa neh xD
a gentee acostuma mas naumd eviaa
tbm concordo xd

bejooo

Quase Trinta disse...

concordo, nos acostumamos pq somos acomodados...

Raquel disse...

Somos mesmo. Nos damos conta quando é tarde demais ou - pior - durante o processo, mas não fazemos nada justamente por ser mais fácil...

Pri C. Figueira disse...

Que lindo!!
Gosto muito dos textos da Clarice Lispector... são de uma essência!!
Bahhh, que coisa triste não, deixamos muitas vezes de viver, aprender novas coisas por causa do nosso comodismo!!!!
Ahhh, infelizmente é assim mesmo!!!!

Bjus flor!!!!

Laly disse...

Oiii primaa!!
Pois eh...orkut vicia...mas nem é por isso que vou deletar, eh q faz tanto tempo que nao entro q nem to sentindo falta então...rs*

Virei aqui te visitar com frequencia! rs*

Amei o texto...pior que eh verdade neh....

Bjuuuu fica com Deus!

Bruna disse...

Nossa, muito bom esse texto...

me arrepiei flor!!!

infelizmente nos acostumamos com muitas coisas...isso não é o problema. O real problema é quando nós passamos a depender delas! Aí sim a coisa fica preta!!!

beijãããooo

raai. disse...

eu não me acostumo com certas coisas, e luto para mudar :D

:*

jeffao_araujo disse...

de fato,
a gente se acostuma, mas não devia.

Anônimo disse...

Esse texto( que por sinal é uma crônica) é da sensacional MARINA COLASANTI, conserta isso pelo amor de Deus. Chega de textos apócrifos, né? Ah, e Clarice Lispector, romancista, cronista, NÃO escrevia “poemas”.